A Mulemba Secou

há tempos que o procurava
o meu poema da minha adolescência
um dos tesouros da minha caixa de memórias
encontrei-o agora no "Angola os poetas"
vou deixá-lo aqui mesmo à mão
é do Aires de Almeida Santos


a mulemba secou.

pisadas
por toda a gente,
ficaram as folhas
secas, amareladas

a estalar sob os pés de quem passava.

depois o vento as levou…

como as folhas da mulemba
foram-se os sonhos gaiatos
dos miúdos do meu bairro.

(de dia,
espalhavam visgo nos ramos
e apanhavam catuituis,
viúvas, siripipis
que o chiquito da mulomba
ia vender no palácio
numa gaiola de bimba.

de noite,
faziam roda, sentados,
a ouvir,
de olhos esbugalhados,
a velha jaja a contar
histórias de arrepiar
do feiticeiro catimba).

mas a mulemba secou
e com ela,
secou também a alegria
da miudagem do bairro:

o macuto da ximinha
que cantava todo o dia
já não canta.
o zé camilo , coitado,
passa o dia deitado
a pensar em muitas coisas.
e o velhote camalindo,
quando passa por ali,
já ninguém o arrelia,
já mais ninguém lhe assobia,
já faz a vida em sossego.

como o meu bairro mudou,
como o meu bairro está triste
porque a mulemba secou…

só o velho camalundo
sorri ao passar por lá!...


Aires de Almeida Santos

3 comentários:

Adolfo Payés disse...

Que lindo pasar a leerte.. mi querida amiga.. bello poemas..

Un beso..

Feliz Año Nuevo..

Un abrazo
Saludos fraternos..

Feliz fin de semana...
PD:Que tengas un año 2010 de los mejores.

menezes chilongo disse...

que lindo

Soberano Canhanga disse...

Prezada Viajante,
Nas minhas viagens matinais pelos blogs amigos e outros que descubro aqui tem sido o meu sitio de pousio. Aqui releio e descubro poemas de classicos da nossa liter-atura e das suas belas criações artísticas. Bem haja poesia!!!!